
É, caro leitor, pode parecer que o título não tem a ver com nada, principalmente com a foto. Mas, numa sexta-feira, você sabe, tudo pode acontecer. Inclusive o que vou relatar a seguir...
Desprovido da vontade de Getúlio de cometer suicídio, de Lula em ser omisso e, principalmente, de JK em ser paciente, decidi seguir corajosamente os passos de Jânio: entreguei os pontos e, definitivamente, renunciei.
Não vou mais me esforçar para prestar atenção nas aulas de política. Mesmo lendo jornal durante as tentativas de explicação, de vez em quando ainda dava uma "olhada" para me ligar na matéria. Agora, nem isso!
Antes de mais nada, é preciso esclarecer ao leitor que isso não é má vontade. Certamente, a culpa é de forças ocultas (lembrem-se que estou seguindo o exemplo de Jânio), ou melhor, de alguns eventos paralelos à aula ( barulho do ar condicionado, pessoas conversando ao lado, alunos indo ao toalete) que, queria eu ou não, tem um imenso poder de desconcentração. Super-homem não mais seria fresco e superaria facilmente sua fraqueza em relação à Kriptonita, se tivesse que suportar o que tolero.
Mas, independente desses acontecimentos estranhos, mesmo com o "nada", ainda assim é possível se desconcentrar. E, quem diria, a vítima mais freqüente é a própria “Inocência”, a professora. O motivo é obvio: a prolixidade de seus comentários é tão forte, que o feitiço acaba virando contra o próprio feiticeiro. Isso aconteceu outro dia, enquanto tentava explicar algo que não sei até agora:
- (...) porque... (pausa de1 minuto) Hobbes... (2 minutos) escreveu... (3 minutos) Onde é que eu estava mesmo hein!?
Ela, então, olha para cima, como quem não quer nada, nunca encarando os olhares dos alunos, e 4 minutos depois...
- Ah, sim! Porque Hobbes escreveu... ( 5 minutos ) Gente, o que foi que ele escreveu mesmo?
É por essas e outras que renunciei! Mas, enfim, voltando ao assunto...
Hoje, estava tão entretido na leitura do Globo que a aula acabara e nem percebi. Por um instante, eu até que gostei de estar ali. Se pudesse, juro, assistiria ao outro tempo dessa aula, só para terminar de ler o jornal.
Antes de sair da sala, porém, "Fulana", uma amiga que só costuma visitar a sala de Política quando está a passeio, queria saber o que tivera perdido na aula anterior.
"Não sei. Provavelmente nada", respondi.
Ela riu.
"Sou tão turista quanto você", completei.
Ela disse que não costumava vir, pois, como o leitor já sabe, as aulas dão voltas e mais voltas. Conclusão: você entra e sai do mesmo jeito. Quer dizer, não no meu caso. Pelo menos eu leio jornal...
Saímos da sala "elogiando" a excelência e qualidade do corpo docente de nossa universidade.
"Ela não sabe dar aula."
"Eu já desisti dessa matéria há muito tempo."
"Só venho por causa da presença, a aula é a mesma bosta sempre."
"É dose vir aqui na sexta só por causa dessa matéria."
E fomos falando coisas do tipo corredor afora. Ao passar pelo bebedouro, próximo ao banheiro masculino, Fulana apertou meu braço fortemente.
- Vamos beber água, ela disse.
Soltei-me e continuei a andar. Novamente, ela tornou a me apertar. Dessa vez o meu punho, com mais intensidade e com a unha.
- Vamos beber água, disse novamente.
Paramos. Foi quando reclamei:
- Porra, vai lá beber sua água, mas pára de apertar o meu braço, porque está machucando!
No mesmo instante, um vulto azul passara ao nosso lado. Era Inocência, com seu uniforme diário de professora. Por acaso, ela estava atrás de nós o tempo todo e ouvira toda a conversa.
- Caraca, Victor, tô te apertando há meia hora e você nada...
Eu, que sou cara-de-pau, começei a rir. "Fulana" também.
- Fazer o que, né?! Pelo menos, agora, ela já sabe o que pensamos. Morrer iludida, ela não vai! Ou melhora ou piora de vez a qualidade das aulas, falei.
Constrangidos ou não, continuamos a rir.
É... – concluí - depois de ter uma aula maçante de política, ter o punho todo arranhado, e ter pagado o mico de Inocência ouvir toda a lavagem de roupa suja, meu consolo foi se render ao falso apelo de "Fulana" e ir beber um pouco de água para relaxar...